Ainda estava claro do lado de fora, mas dentro, com as cortinas fechadas e o fogo que ardia com uma luz fraca e hesitante, o quarto era preenchido por uma escuridão profunda.
Brantain sentava-se ali, envolto pelas sombras, mas não se importava; elas davam-lhe coragem para fitar ardentemente a moça que sentava-se ao lado do fogo.
Ela era belíssima, tinha o cabelo moreno, saudável, com uma cor rica e delicada. Acariciava tranquilamente o pelo macio do gato deitado em seu colo, e, às vezes, olhava vagarosamente para a sombra onde seu companheiro estava sentado. Eles conversavam baixo sobre coisas triviais que claramente não tinham nada a ver com o que estava ocupando suas mentes. Ela sabia que ele a amava – um sujeito honesto e pretensioso sem sutileza suficiente nem vontade para esconder seus sentimentos. Por duas semanas, ele procurou sua companhia de forma ansiosa e persistente. A moça esperava confiante para que ele se declarasse, já que pretendia aceita-lo. Brantain não era interessante nem atraente, mas era muito rico; e ela cobiçava a companhia que a riqueza poderia lhe proporcionar.
Durante uma das pausas entra uma xícara de chá e a conversa, a porta se abriu e um jovem, que Brantain conhecia muito bem, entrou. A moça virou o rosto para ele. Com um ou dois passos, ele chegou ao lado dela e, antes que ela suspeitasse de sua intenção, já que havia uma visita ali, ele inclinou-se sobre sua cadeira e deu um longo e ardente beijo em seus lábios.
Brantain levantou-se lentamente; já ela, com rapidez, e o recém-chegado ficou entre os dois, com a expressão confusa, mas segurando o riso e a vontade de provocar.
“Acho,” gaguejou Brantain, “Acho que prolonguei minha estadia. Eu—Eu não tinha ideia de que—quero dizer, tenham um bom dia.” Ele agarrou seu chapéu com as duas mãos e provavelmente não notou que a moça estendia a mão para ele; ela manteve a compostura, mas não podia confiar em si mesma para falar.
“Juro de pés juntos que não vi ele sentado ali, Nattie! Sei que foi constrangedor pra você, mas espero que possa me perdoar dessa vez – essa primeira interrupção. Ora, qual o problema?”
“Não me toque; não chegue perto de mim,” ela respondeu irritada. “Como você pode entrar em casa sem tocar a campainha?”
“Entrei com seu irmão, como geralmente faço,” ele retrucou friamente, defendendo-se. “Entramos pela porta lateral. Ele subiu e eu vim aqui esperando te encontrar. A explicação é simples o suficiente para te mostrar que esse infortúnio era inevitável. Perdoe-me, Nathalie,” ele suplicou, suavemente.
“Perdoar! Você não sabe do que está falando. Deixe-me passar. Vai depender—vai depender muito se um dia eu vou te perdoar.”
Na recepção seguinte do qual Nathalie e Brantain haviam discutido, ao vê-lo, ela aproximou-se de forma agradável e honesta.
“Posso falar com você por um momento, Sr. Brantain?” ela perguntou com um sorriso cativante, mas preocupado. Ele parecia bem triste, mas quando ela pegou seu braço e foi guiando-o, procurando um canto afastado, um raio de esperança se misturou com a miséria quase cômica em seu rosto. Ela aparentava ser bem franca.
“Talvez eu não devesse ter vindo conversar com você, Sr. Brantain; mas—mas, ah, eu estava bem incomodada, quase miserável desde àquela tarde. Quando pensei que você poderia ter interpretado mal, acreditado em certas coisas” — a esperança estava claramente superando a miséria no rosto redondo e ingênuo de Brantain — “Claro, sei que não é nada para você, mas pelo meu próprio bem, quero que entenda que Sr. Harvy é um amigo íntimo e de longa data. Ora, ele sempre foi como um primo – como um irmão, devo dizer. Ele é o associado mais próximo do meu irmão e geralmente acredita que tem direito aos mesmos privilégios da família. Ah, sei que é absurdo, desnecessário te dizer isso; vergonhoso até,” ela estava quase chorando, “mas, para mim, faz muita diferença o que você pensa de—de mim.” Sua voz ficou bem baixa e agitada. A miséria tinha desaparecido completamente do rosto de Brantain.
“Então você realmente se importa com o que eu penso, Senhorita Nathalie? Posso te chamar de Senhorita Nathalie?” Eles entraram em um corredor longo e escuro cujas plantas, grandes e elegantes, estavam alinhadas em ambos os lados. Andaram lentamente até o fim. Quando se viraram para voltar, o rosto de Brantain estava radiante e o dela, triunfante.
Harvy estava entre os convidados do casamento e a procurou em um raro momento em que ela estava sozinha.
“Seu marido,” ele disse, sorrindo, “Me enviou aqui para te beijar.”
O rosto dela ficou ligeiramente corado, assim como seu pescoço. “Acho que é natural um homem pensar e agir de forma generosa em uma ocasião como essa. Ele disse que não quer que o casamento acabe com a intimidade prazerosa que existe entre nós. Não sei o que você falou para ele,” disse com sorriso atrevido, “mas ele me enviou aqui para te beijar.”
Ela se sentiu como uma jogadora de xadrez que, através de seus lances inteligentes, vê que o jogo está seguindo o rumo pretendido. Seus olhos estavam brilhantes e tenros, sorrindo enquanto olhavam para os dele; seus lábios pareciam famintos pelo beijo do qual foram convidados.
“Mas, sabe,” ele continuou calmamente, “Eu não disse a ele, ia parecer ingrato, mas posso te contar: parei de beijar mulheres. É perigoso.”
Bem, ela ainda tinha Brantain e seu dinheiro. Uma pessoa não pode ter tudo nesse mundo; era tolice da parte dela esperar por isso.
Tradução por: J. M. Goya
Fonte/Source: https://americanliterature.com/author/kate-chopin/short-story/the-kiss
Comentários
Pelo menos ficou com o dinheiro. Ótima tradução!
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