Nota de J. M. Goya: Hoje temos mais um guest writer, meu amigo Ícaro. Tradutor, escritor, mestrando, pai de uma linda gatinha chamada Lilith, amante de quadrinhos e terror, ele possui alguns contos publicados em antologias, como "Camomila" e "O Fantasma do Coreto".
Aqui temos um pequeno conto que ele compartilhou comigo para postar no blog, espero que gostem.
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A Flor
Há uma pequena flor enterrada no meu peito. Não fui eu que a coloquei lá, mas mesmo assim ela criou raízes. Essa flor não é minha. É uma orquídea rosa que se enrolou em minhas costelas e, não satisfeita, sobe agora por minha garganta. Tenho medo de tirá-la. Ela é linda, mas suas pétalas delicadas se prendem nas paredes do meu esôfago e da minha laringe, as raízes apertam meus pulmões e as folhas se fincam no meu coração. Essa flor não cabe em mim.
Então, eu rasgo o meu peito. Afundo os dedos na carne, sentindo a pele se partir. O corte não é limpo, as bordas irregulares ficam encharcadas pelo sangue que escorre entre minhas mãos, formando uma poça vermelha aos meus pés. O cheiro nauseante faz minha cabeça girar e meu estômago se fechar em nós de ânsia. Posso ver agora a flor manchada. Meus dedos tateiam as raízes, arrancando-as das costelas, soltando-as dos meus pulmões. Cada movimento raspa contra meus ossos e minha carne, cortando a minha mente em dor, mas é impossível parar agora. Finalmente, a última raiz se desprende com um som oco e molhado de onde estava começando a se enrolar na minha coluna vertebral. Arranco a flor do meu peito e ela cai no chão junto comigo.
Ofegante, olho flor que jaz agora no sangue, um órgão nocivo e invasor, plantado em mim. Parece tão patético agora, as pétalas rasgadas, as raízes quebradas, as folhas tortas. É difícil imaginar que essa flor estava me matando.
Com dedos trêmulos, pego linha e agulha e costuro o meu peito, juntando as partes de mim que rasguei. Fecho os olhos e sinto meus pulmões se encherem de ar pela primeira vez em anos.
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J. M. Goya's note: Today we have another guest writer, my friend Ícaro. Translator, writer, Master's degree student, father of a cute cat called Lilith, comic book and horror lover, he has some short stories published in anthologies, such as "Camomila" and "O Fantasma do Coreto".
Here we have a short story he shared with me to post in the blog, I hope you enjoy it.
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The Flower
There is a small flower buried in my chest. I wasn't the one who put it there, but it created roots anyway. This flower isn't mine. A pink orchid intertwined itself around my ribs and, unsatisfied, now claws its way up my throat. I'm afraid of removing it. It is beautiful, but its delicate petals stick to my esophagus and larynx, the roots squeeze my lungs and the leaves cut my heart. The flower does not fit me.
And so, I rip open my chest. I sink my fingers into my flesh, feeling my skin part. The cut isn't clean, the jagged edges are soaked in blood that flows in rivulets between my fingers, a pool a red at my feet. The smell is sickening, making my head spin and my stomach cramp in knots of nausea. I can see now the stained flower. My fingers fumble with the roots, ripping it away from my rib cage, from my lungs. Each movement drags against my bones and my flesh, hot pain cutting my mind, but it's impossible to stop now. Finally, the last root is released with a hollow wet sound from where it was beginning to curl around my spine. I rip the flower from my chest, and it falls to the floor with me.
Breathless, I look at the flower that lays now in my blood, a toxic, invading organ, planted in me by outside hands. It looks so pathetic now, the torn petals, the broken roots, the twisted leaves. It is hard to imagine that this flower was killing me.
With shaking fingers, I grab a needle and thread and sew my chest back together, putting together the torn parts of me. I close my eyes and feel my lungs fill with air for the first time in years.
Bonitinho c:
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